Notícia - Baiana que passou fome e trabalhou como doméstica conquista 1º lugar em concurso para juíza09/09/2026 Baiana que passou fome e trabalhou como doméstica conquista 1º lugar em concurso para juíza
Rosilene de Santana Souza deixou o sertão da Bahia aos 12 anos, dividiu comida, uniforme e calçado com a irmã e transformou dificuldades em uma trajetória até a magistratura no Acre.
A história da baiana Rosilene de Santana Souza é marcada por dificuldades que começaram ainda na infância e terminaram com uma conquista que parecia distante. Nascida na comunidade de Pajeú, no sertão da Bahia, ela deixou a região aos 12 anos para estudar e, depois de trabalhar como doméstica, enfrentar períodos de fome e prestar 14 concursos, conseguiu ser aprovada em primeiro lugar para a magistratura do Acre.
A trajetória foi registrada pelo Tribunal de Justiça do Acre e voltou a ganhar destaque nesta segunda-feira, 7, após uma reportagem publicada pelo Correio. Em 2022, ao tomar posse como juíza substituta, Rosilene contou detalhes das dificuldades enfrentadas durante a adolescência.
Aos 12 anos, deixou o sertão para estudar
Rosilene e a irmã, Regina, que tinha 13 anos, deixaram a comunidade rural onde viviam e percorreram aproximadamente 30 quilômetros até Oliveira dos Brejinhos, também na Bahia. As duas passaram a morar sozinhas em busca de melhores condições para estudar.
O deslocamento até a cidade também era difícil. Segundo o relato da magistrada, elas caminhavam cerca de dez quilômetros até a estrada e dependiam de caronas em caminhões conhecidos como "pau de arara".
Na cidade, a situação financeira das irmãs era extremamente difícil. Rosilene contou que chegou a trabalhar como doméstica e receber cerca de R$ 20 por serviço. Em determinados períodos, as duas enfrentaram fome e precisaram pedir restos de ossos em um açougue municipal para complementar a alimentação. "Passamos fome. Foi preciso pedir restos de ossos no açougue municipal para complementar nossa alimentação", relatou Rosilene ao relembrar aquele período.
Irmãs dividiam até o uniforme e o calçado
As dificuldades financeiras também atingiam diretamente os estudos. Sem dinheiro para comprar materiais escolares, roupas e calçados, as irmãs precisavam dividir o que tinham. Em determinado período, uma estudava pela manhã e a outra à tarde para que pudessem compartilhar o mesmo calçado. A situação não impediu Rosilene de continuar estudando. O desejo de chegar à magistratura surgiu ainda na infância, embora naquele momento ela não soubesse exatamente quais caminhos precisaria percorrer para alcançar o cargo. O próprio pai teve papel importante nessa decisão. Segundo a magistrada, ele sempre incentivou os filhos a estudar e acreditava que a educação poderia mudar a trajetória da família.
Curso técnico abriu caminho para o Direito
Aos 19 anos, Rosilene concluiu o ensino médio por meio de supletivo em Colatina, no Espírito Santo. Naquele momento, porém, a faculdade de Direito parecia financeiramente distante. Com o salário que recebia como doméstica, ela não tinha condições de pagar o curso. A solução foi buscar uma formação profissional que permitisse aumentar a renda. Rosilene ingressou em um curso técnico de Edificações em um Instituto Federal e, pouco mais de um ano depois, conseguiu mudar de emprego
Durante a graduação, Rosilene manteve o foco no objetivo de chegar à magistratura. Ainda no nono período do curso de Direito, prestou o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e foi aprovada. Depois de formada, começou a trabalhar como advogada e passou a direcionar a preparação para concursos públicos da magistratura. O caminho, novamente, foi marcado por tentativas e frustrações. Rosilene prestou 14 concursos antes de conquistar a aprovação. "Estudava cada vez mais até ser aprovada", contou a magistrada o recordar o período de preparação.
Primeiro lugar no concurso mudou a trajetória
A aprovação finalmente veio em primeiro lugar no concurso para ingresso na magistratura do Tribunal de Justiça do Acre. Rosilene tomou posse como juíza substituta em dezembro de 2022, e não em 2023 como aparece em alguns relatos reproduzidos posteriormente. O próprio TJAC registra que ela foi empossada em 8 de dezembro de 2022, após conquistar a primeira colocação no concurso.
A magistrada posteriormente passou a atuar no Judiciário acreano. Atualmente, o Tribunal de Justiça do Acre registra Rosilene de Santana Souza como juíza titular da Vara Cível da Comarca de Cruzeiro do Sul.
Da fome à magistratura
A trajetória de Rosilene ganhou repercussão justamente pela distância entre o ponto de partida e a posição conquistada no Judiciário.
A menina que precisou deixar o sertão aos 12 anos, trabalhar como doméstica, dividir uniforme e calçado com a irmã e enfrentar períodos de fome tornou-se advogada e, posteriormente, juíza após conquistar o primeiro lugar em um concurso público. Em participação promovida pelo Tribunal de Justiça do Acre, a magistrada afirmou que sua história representa a possibilidade de transformação por meio da educação, da disciplina e da persistência.
A mensagem deixada por Rosilene é direcionada especialmente a pessoas que enfrentam dificuldades para mudar a própria realidade. Para ela, é necessário acreditar na própria capacidade, manter disciplina e buscar equilíbrio para continuar avançando. A história da magistrada baiana também mostra como a educação pode funcionar como instrumento de mobilidade social, mesmo quando o ponto de partida é marcado pela pobreza e pela falta de oportunidades.
Fonte: acessepolitica.com.br
Sindoméstica Sorocaba - Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos de Jundiaí e Região